
Você já tentou encaixar Deus nos limites da sua lógica — e concluiu que o que Ele promete é impossível?
A gente tem uma tendência muito humana de julgar o que Deus pode ou não pode fazer com base no que a gente já conhece. Se a experiência não confirma, a gente descarta. Se a razão não alcança, a gente nega. É mais confortável ter um Deus que cabe na nossa cabeça do que confiar num Deus que a transcende.
Os saduceus eram especialistas nisso. Usavam a lógica humana para provar que a ressurreição era absurda. E chegaram até Jesus achando que tinham um argumento irrebatível.
No Evangelho de hoje, os saduceus — que não acreditavam em ressurreição — criam um caso hipotético elaborado para mostrar que a ideia de vida após a morte é logicamente impossível. Sete irmãos, uma mulher, uma pergunta armadilha: “Na ressurreição, de quem ela será mulher?”
E Jesus responde com uma frase que desfaz tudo: “Vós estais enganados, por não conhecerdes as Escrituras nem o poder de Deus.”
Dois problemas. Dois pontos cegos. E uma revelação sobre o Deus que não é Deus dos mortos — mas dos vivos.
Evangelho do dia 03 de junho de 2026
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Marcos.
— Glória a vós, Senhor.
Marcos 12, 18-27
Naquele tempo, vieram ter com Jesus alguns saduceus, os quais afirmam que não existe ressurreição e lhe propuseram este caso: “Mestre, Moisés deu-nos esta prescrição: Se morrer o irmão de alguém, e deixar a esposa sem filhos, o irmão desse homem deve casar-se com a viúva, a fim de garantir a descendência de seu irmão”. Ora, havia sete irmãos, o mais velho casou-se, e morreu sem deixar descendência. O segundo casou-se com a viúva, e morreu sem deixar descendência. E a mesma coisa aconteceu com o terceiro. E nenhum dos sete deixou descendência. Por último, morreu também a mulher. Na ressurreição, quando eles ressuscitarem, de quem será ela mulher? Por que os sete se casaram com ela!” Jesus respondeu: “Acaso, vós não estais enganados, por não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus? Com efeito, quando os mortos ressuscitarem, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu. Quanto ao fato da ressurreição dos mortos, não lestes, no livro de Moisés, na passagem da sarça ardente, como Deus lhe falou: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’? Ora, ele não é Deus de mortos, mas de vivos! Vós estais muito enganados”.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
REFLEXÃO — O Deus que Guarda os Nomes
“Vós estais enganados, por não conhecerdes as Escrituras nem o poder de Deus.”
Jesus identifica dois problemas distintos — e vale a pena olhar para cada um deles separadamente, porque os dois falam direto para a vida da gente hoje.
O primeiro: não conhecerdes as Escrituras. Os saduceus eram especialistas na Lei. Estudavam as Escrituras profissionalmente. Como é possível que Jesus diga que não as conheciam?
Porque conhecer as palavras não é o mesmo que entender a voz. É possível ler um texto a vida toda sem nunca deixar que ele transforme o jeito de ver as coisas. Os saduceus conheciam a letra — mas perderam o espírito. Leram as Escrituras com os olhos de quem quer confirmar o que já acredita, não com os olhos de quem quer ser surpreendido por Deus.
O segundo: nem o poder de Deus. O argumento dos saduceus pressupõe que a vida ressuscitada vai ser como esta vida — com os mesmos arranjos, as mesmas estruturas, as mesmas categorias. E a conclusão deles é: isso gera contradições, logo não pode existir.
Mas Jesus diz: a ressurreição não é uma continuação da vida como ela é agora. É uma realidade nova, de uma ordem completamente diferente. “Serão como os anjos do céu.” Não é uma descrição técnica do que são os anjos — é uma afirmação de que a vida ressuscitada transcende as categorias que a gente usa para entender a vida presente. O casamento, que aqui tem uma função de continuidade e proteção, não será necessário lá — não porque o amor acabará, mas porque a plenitude estará presente de outra forma.
E então Jesus usa um argumento de uma elegância surpreendente — exatamente nos termos que os saduceus aceitam, ou seja, a Torah. Ele vai à cena da sarça ardente: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó.”
Tempo presente. Não “Eu fui” — “Eu sou.” No momento em que Deus fala com Moisés, Abraão, Isaac e Jacó já tinham morrido há séculos. E no entanto Deus usa o presente. Como se eles ainda estivessem — de alguma forma, numa realidade que transcende a morte física — vivos diante Dele.
“Ele não é Deus de mortos, mas de vivos.”
Essa frase é muito mais do que um argumento teológico. É uma declaração sobre a natureza de Deus. Deus não é um arquivista de memórias. Não guarda os nomes dos que morreram como dados históricos. Ele é o Deus de pessoas — e essas pessoas estão vivas para Ele.
Isso muda tudo para quem perdeu alguém.
A dor da perda é real. O luto não é negado pelo Evangelho — Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro, e esse detalhe não está lá por acaso. Mas o Evangelho diz que a última palavra não pertence à morte. Que quem está com Deus está vivo — de um jeito que nossa mente não consegue alcançar completamente, mas que é mais real do que tudo que chamamos de real aqui.
O Deus que disse “Eu sou” no deserto é o mesmo que diz hoje: Eu conheço o seu nome. E quem Eu conheço, não perece.

ORAÇÃO DO DIA
Senhor Jesus, hoje Tu me desafiaste a ampliar o meu jeito de ver Deus.
Eu confesso que às vezes reduzo o poder de Deus ao tamanho da minha compreensão. Que quando algo ultrapassa o que consigo imaginar, a minha tendência é desconfiar — em vez de me admirar.
Que eu aprenda a ler as Escrituras não para confirmar o que já penso, mas para ser surpreendido pelo que ainda não vi. Que eu não leia a Palavra com os olhos fechados da certeza — mas com os olhos abertos da busca.
E pela promessa da ressurreição — que é difícil de segurar, mas que é o coração de tudo que creio — obrigado, Senhor. Obrigado porque Tu és o Deus de vivos. Porque os que eu amei e perdi não são apenas memória para Ti. São pessoas vivas diante de Ti.
Que essa certeza me sustente nos dias de luto. Que a Tua promessa seja mais forte do que a minha dor.
Tu és o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó — e és o meu Deus. Eu estou nas Tuas mãos. E nessas mãos, nada se perde para sempre.
Amém.
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